Alergia Alimentar: Culpa da Genética ou do Ambiente?

A alergia alimentar (AF) tem se tornado uma preocupação crescente de saúde pública no mundo todo. Estima-se que cerca de 8% das crianças sejam afetadas por esse problema que, em casos extremos, pode levar à anafilaxia e morte.

Mas afinal, por que algumas pessoas reagem a alimentos comuns como leite, amendoim ou ovo, enquanto outras os consomem normalmente por toda a vida? A resposta está em uma complexa dança entre nossos genes e o ambiente em que vivemos.

Genética e Alergia Alimentar

A predisposição genética é um dos principais pilares na compreensão da alergia alimentar. Diversos estudos demonstram que genes associados ao funcionamento da imunidade — como os do complexo HLA, STAT6, CD14, IL-13 e FLG (filagrina) — estão frequentemente presentes em pessoas com histórico de alergias.

Estudos com gêmeos, por exemplo, reforçam esse papel genético: gêmeos idênticos (com o mesmo DNA) têm uma taxa de concordância muito maior para alergia alimentar do que gêmeos fraternos. Um estudo mostrou 82% de concordância para alergia ao amendoim entre gêmeos monozigóticos, contra apenas 20% entre dizigóticos.

Além disso, doenças monogênicas como a síndrome de Netherton e a síndrome IPEX (relacionada ao gene FOXP3) apresentam alta associação com alergias alimentares. Isso demonstra que alterações em genes que regulam a barreira da pele e a tolerância imunológica também desempenham papéis fundamentais.

E o Ambiente? Ele Também Conta – E Muito

Apesar do peso da genética, o aumento explosivo nos casos de alergia alimentar nas últimas décadas dificilmente pode ser explicado por mudanças nos genes da população. Nosso DNA não muda tão rapidamente.

A maior suspeita? O ambiente.

Fatores como a dieta ocidental, uso excessivo de antibióticos, alterações na microbiota intestinal, poluição, higiene excessiva, exposição precoce ou tardia a alérgenos alimentares e até mesmo a deficiência de vitamina D estão entre os principais suspeitos.

Inclusive, estudos com gêmeos também apontam para isso: mesmo quando os gêmeos são geneticamente idênticos, nem sempre ambos desenvolvem a alergia, o que reforça a importância dos fatores ambientais.

Outro exemplo marcante são as diferenças na prevalência de alergias entre imigrantes e nativos em países desenvolvidos. Crianças que migram para locais com hábitos alimentares e ambientais diferentes dos seus países de origem tendem a apresentar maior risco de desenvolver alergias.

Genética x Ambiente: Uma Relação em Dupla

A chave para entender a alergia alimentar pode estar nas interações entre genes e ambiente. O nome técnico disso é interação gene-ambiente (GxE).

Por exemplo, crianças com mutações no gene FLG (associado à função da barreira da pele) têm risco aumentado de sensibilização ao amendoim quando expostas ao alérgeno no ambiente doméstico. Ou seja: não é apenas ter o gene alterado — o ambiente em que a criança vive influencia diretamente no risco real da alergia se manifestar.

Alergia Alimentar e Diferenças Raciais: Uma Realidade Inequívoca

As taxas de alergia alimentar são desproporcionalmente mais altas entre afro-americanos em comparação com outras etnias. Crianças afro-americanas, por exemplo, têm oito vezes mais chances de desenvolver alergia ao amendoim do que a média da população pediátrica dos EUA.

Alguns genes envolvidos nas respostas imunes, como IL-4 e IL-13, têm variações genéticas mais prevalentes em pessoas de ascendência africana. Isso pode ter sido vantajoso no passado para combater parasitas, mas hoje pode aumentar o risco de doenças alérgicas em ambientes urbanos modernos.

Além disso, fatores socioeconômicos, acesso desigual à saúde e exposição a diferentes ambientes físicos também influenciam essas disparidades.

E onde entra o Nutricionista?

O nutricionista é peça-chave no manejo da alergia alimentar — não apenas para orientar sobre a exclusão alimentar, mas principalmente para:

  • Investigar sintomas e histórico familiar, levantando hipóteses clínicas baseadas em fatores genéticos e ambientais.
  • Coordenar uma dieta segura e equilibrada, que respeite as exclusões necessárias sem comprometer a nutrição.
  • Educar e empoderar o paciente sobre rótulos, contaminação cruzada e estratégias de substituição alimentar.
  • Atuar em conjunto com a equipe multiprofissional, contribuindo com conhecimento técnico sobre microbiota, nutrição anti-inflamatória, e até suplementação de nutrientes moduladores da imunidade.
  • Promover tolerância imunológica por meio da introdução gradual de alimentos sob supervisão, quando indicado.

Você tem observado mais casos de alergia alimentar no consultório? Fique atento: conhecer os fatores genéticos, ambientais e étnicos por trás da alergia alimentar é essencial para um plano de cuidado mais efetivo, individualizado e seguro.