
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) envolve não apenas aspectos comportamentais e de comunicação, mas também grandes desafios no campo alimentar. Alterações no processamento sensório-oral e padrões de seletividade podem impactar diretamente a qualidade da dieta dessas crianças.
Processamento Sensorial e Alimentação
Muitas crianças com TEA apresentam Transtorno do Processamento Sensorial (TPS), um quadro em que os estímulos do ambiente não são interpretados de forma típica pelo sistema nervoso.
- Isso influencia diretamente a aceitação ou rejeição de certos alimentos.
- Texturas, cores, cheiros e temperaturas podem gerar hipersensibilidade ou aversão.
Esse mecanismo ajuda a explicar a seletividade alimentar e os comportamentos repetitivos durante as refeições.
O Estudo Científico
Um estudo com 30 crianças de 3 a 10 anos, participantes do projeto Nutrição e Neurodesenvolvimento (UFPE), avaliou alterações sensoriais, comportamento alimentar e consumo nutricional.
Principais achados:
- As maiores dificuldades alimentares ocorreram em crianças com ≤ 6 anos.
- O comportamento mais frequente foi evitar vegetais crus e cozidos.
- Preferência alimentar marcada por doces, salgadinhos e ultraprocessados.
- Baixo consumo de alimentos saudáveis correlacionado a dificuldades durante as refeições:
- Comer fora de hora
- Inquietação motora (não conseguir ficar sentado)
- Comer apenas em um local fixo
- Comer fora de hora
Além disso, crianças com alterações no perfil sensório-oral apresentaram maior dificuldade em consumir vegetais.
Implicações Clínicas
Esses dados mostram que não basta apenas oferecer alimentos saudáveis — é preciso considerar o componente sensorial e comportamental no planejamento da alimentação de crianças com TEA.
- Estratégias de exposição gradual a diferentes texturas
- Trabalho multidisciplinar com terapeutas ocupacionais e fonoaudiólogos
- Ambiente estruturado para reduzir a ansiedade durante as refeições
O Papel do Nutricionista

O nutricionista desempenha papel fundamental no manejo alimentar de crianças com TEA:
- Avaliar seletividade e histórico alimentar, identificando lacunas nutricionais.
- Criar planos alimentares personalizados, respeitando preferências sensoriais e introduzindo gradualmente alimentos saudáveis.
- Estabelecer metas realistas, priorizando aceitação alimentar e qualidade nutricional.
- Trabalhar em conjunto com a família e equipe multiprofissional, para reforçar estratégias no ambiente domiciliar e terapêutico.
- Indicar suplementação quando necessário, sempre baseada em evidências e individualização.
Conclusão: O comportamento alimentar em crianças com TEA não pode ser visto apenas como “frescura” ou birra. Ele é resultado de alterações sensoriais reais que precisam ser respeitadas e trabalhadas com estratégias específicas. O nutricionista, ao integrar ciência e prática clínica, é peça essencial para melhorar o consumo alimentar, promover saúde e qualidade de vida nessas crianças.