
Neste artigo Iremos explorar:
ToggleA doença celíaca vai além do intestino
Tradicionalmente, a doença celíaca (DC) era vista apenas como uma condição de má absorção intestinal. Hoje, sabemos que ela é uma doença sistêmica, com manifestações que ultrapassam o trato digestivo e podem atingir diversos órgãos, incluindo o sistema cardiovascular
A relação com a doença cardiovascular (DCV)
Nas últimas décadas, surgiram hipóteses de que a DC poderia aumentar o risco de doença cardiovascular aterogênica. Muitos estudos relataram prevalência maior de hipertensão, dislipidemia e diabetes mellitus entre celíacos, fatores clássicos de risco para o coração
O mecanismo mais aceito envolve a inflamação crônica da mucosa intestinal nos pacientes que não seguem corretamente a dieta sem glúten (DSG). Esse processo leva à liberação sistêmica de citocinas inflamatórias, capazes de agredir o endotélio vascular e acelerar a aterogênese
O que mostrou o novo estudo
Um estudo retrospectivo com 8.495 pacientes realizado na Itália trouxe resultados surpreendentes:
- A presença de doença celíaca esteve associada a menor risco de doença cardiovascular (OR 0.30, IC95% 0.22–0.41).
- O efeito protetor foi ainda mais evidente em pacientes que seguiam a dieta sem glúten por longos períodos.
- Entre os celíacos avaliados por ultrassom, a frequência de placas carotídeas foi significativamente menor do que em não celíacos
Possíveis explicações

- Adesão à DSG: a retirada do glúten reduz a inflamação intestinal e sistêmica.
- Autocuidado: celíacos tendem a realizar mais consultas médicas, monitorar sua saúde e adotar hábitos preventivos.
- Perfil metabólico: em algumas populações, celíacos apresentam menores taxas de obesidade, dislipidemia e tabagismo
O papel do nutricionista
O nutricionista tem função estratégica neste cenário, atuando em várias frentes:
- Garantir adesão à dieta sem glúten (DSG), orientando substituições seguras e equilibradas.
- Acompanhar fatores de risco cardiovascular (pressão, perfil lipídico, glicemia), considerando a interface DC–DCV.
- Prescrever planos alimentares cardioprotetores, ricos em fibras, fitoquímicos e antioxidantes, alinhados ao estilo de vida do paciente.
- Interpretar exames laboratoriais e de imagem em conjunto com a equipe médica, ajustando condutas nutricionais.
- Trabalhar em equipe multiprofissional, auxiliando na prevenção de complicações sistêmicas associadas à doença celíaca.
Conclusão: A doença celíaca, quando bem controlada com dieta sem glúten, pode não apenas evitar complicações intestinais, mas também oferecer efeito protetor contra doenças cardiovasculares. A nutrição clínica, portanto, é peça-chave tanto no cuidado intestinal quanto na promoção da saúde cardiovascular.