Lipoproteína(a): biomarcador e fator de risco na aterosclerose

A doença cardiovascular continua sendo a principal causa de morte no mundo, e a identificação precoce de fatores de risco é essencial para uma abordagem preventiva mais eficaz. Nesse cenário, a lipoproteína(a) [Lp(a)] tem ganhado destaque como um biomarcador independente e geneticamente determinado, diretamente envolvido na fisiopatologia da aterosclerose e na ocorrência de eventos cardiovasculares.

Diferente de outros marcadores lipídicos que sofrem grande influência do estilo de vida, os níveis de Lp(a) permanecem relativamente estáveis ao longo da vida, refletindo principalmente a expressão genética. Isso faz com que sua avaliação clínica tenha um papel importante na identificação de indivíduos com risco cardiovascular aumentado, mesmo quando o perfil lipídico tradicional se encontra dentro da normalidade.

O que é a lipoproteína(a) e por que ela importa?

A Lp(a) é uma partícula estruturalmente semelhante ao LDL, formada pela ligação da apolipoproteína B-100 a uma apolipoproteína(a). Essa estrutura única confere propriedades que a tornam altamente aterogênica, pró-inflamatória e pró-trombótica.

Seus níveis elevados estão associados ao aumento do risco de:

  • doença arterial coronariana
  • infarto agudo do miocárdio
  • acidente vascular cerebral
  • estenose valvar aórtica

Por ser predominantemente determinada por fatores genéticos, a Lp(a) é considerada um marcador importante na predisposição individual à doença cardiovascular.

Lp(a) e aterosclerose: um processo mais intenso que o LDL

O acúmulo da Lp(a) na parede dos vasos ocorre de forma semelhante ao LDL, porém com uma diferença importante:
ela possui maior afinidade pela matriz extracelular, ligando-se a proteínas como colágeno, fibrinogênio e fibronectina.

Essa característica dificulta sua remoção e favorece:

  • retenção na parede arterial
  • formação de células espumosas
  • progressão da placa aterosclerótica

Como resultado, há redução do fluxo sanguíneo e aumento do risco de eventos cardiovasculares.

Um potente indutor de inflamação vascular

A Lp(a) é o principal transportador plasmático de fosfolipídios oxidados, moléculas com alto potencial inflamatório.

Esses compostos promovem:

  • recrutamento de monócitos e macrófagos
  • liberação de citocinas pró-inflamatórias
  • aumento de moléculas de adesão endotelial
  • disfunção do endotélio

Além de contribuir para a formação da placa, esse processo também favorece sua instabilização, aumentando o risco de ruptura e de eventos agudos, como infarto e AVC.er interpretada dentro do contexto metabólico do paciente e não apenas como um marcador isolado de hepatopatia.

Efeito pró-trombótico: quando o risco vai além da placa

Outro ponto central é sua ação sobre o sistema fibrinolítico.

Devido à semelhança estrutural com o plasminogênio, a Lp(a):

  • compete com sua ligação à fibrina
  • reduz a formação de plasmina
  • dificulta a dissolução do coágulo

Além disso, pode aumentar a agregação plaquetária e favorecer a coagulação.

Na prática, isso significa maior risco de formação de trombos e eventos isquêmicos.

Valores de referência e interpretação clínica

De acordo com as diretrizes atuais:

  • < 30 mg/dL (≈ 75 nmol/L) → risco habitual
  • 30–50 mg/dL (≈ 75–125 nmol/L) → risco intermediário
  • > 50 mg/dL (≈ 125 nmol/L) → alto risco cardiovascular

As recomendações mais recentes sugerem que a dosagem da Lp(a) seja realizada pelo menos uma vez na vida, especialmente em indivíduos com:

  • histórico familiar de doença cardiovascular precoce
  • eventos recorrentes
  • hipercolesterolemia familiar
  • risco cardiovascular aumentado sem causa aparente.

Existe tratamento para reduzir Lp(a)?

A maioria das terapias hipolipemiantes tradicionais tem pouco efeito sobre a Lp(a).

Atualmente:

  • estatinas → podem aumentar discretamente
  • inibidores de PCSK9 → reduzem modestamente
  • niacina → reduz níveis, mas sem impacto comprovado em desfechos

As terapias mais promissoras são as baseadas em RNA (antisense e siRNA), que demonstraram reduções superiores a 80–90%, porém ainda estão em fase de estudo quanto ao impacto na redução de eventos cardiovasculares.

Por que solicitar Lp(a) na prática clínica?

A avaliação da Lp(a) permite uma estratificação de risco mais individualizada, especialmente em pacientes que:

  • apresentam eventos cardiovasculares sem fatores de risco clássicos
  • possuem LDL controlado, mas risco residual elevado
  • têm forte histórico familiar

Isso possibilita uma abordagem mais precoce e intensiva sobre os fatores modificáveis.

Conclusão

A lipoproteína(a) não é apenas um marcador laboratorial — ela participa ativamente da formação, progressão e instabilização da placa aterosclerótica, além de favorecer a trombose.

Seu caráter genético e sua baixa resposta às intervenções convencionais reforçam a importância da sua dosagem na prática clínica, permitindo identificar indivíduos com risco cardiovascular aumentado que poderiam passar despercebidos na avaliação tradicional.

A incorporação desse biomarcador na rotina clínica representa um passo importante em direção a uma medicina mais personalizada e preventiva.


Referência

Bispo MB, Silva Júnior DG. Lipoproteína(a): biomarcador e fator de risco na aterosclerose – da fisiopatologia à prática clínica. Research, Society and Development. 2025;14(3):e0114348379.

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