Lipoproteína(a): biomarcador negligenciado ou fator de risco real?

A Lipoproteína(a), também chamada de Lp(a), tem ganhado destaque como um biomarcador genético e fator de risco independente para doenças cardiovasculares. Diferente do LDL, seus níveis são determinados principalmente por fatores genéticos e se mantêm estáveis ao longo da vida.

Apesar disso, ainda é pouco solicitada na prática clínica. Mas ignorá-la pode ser um erro.

Por que a Lp(a) preocupa?

A Lp(a) tem uma estrutura semelhante ao LDL, mas com uma apolipoproteína adicional chamada apo(a). Essa combinação confere à partícula propriedades altamente inflamatórias, aterogênicas e pró-trombóticas.

Ela se acumula na parede dos vasos sanguíneos e com ainda mais afinidade do que o próprio LDL pois se liga a proteínas da matriz extracelular como colágeno e fibronectina. Isso dificulta sua remoção e favorece a progressão da aterosclerose.

Muito além da placa: o risco vai além da obstrução

A Lp(a) carrega fosfolipídios oxidados, substâncias altamente inflamatórias que:

  • Ativam o sistema imune
  • Estimulam a liberação de citocinas
  • Alteram o funcionamento das células endoteliais
  • Aumentam a instabilidade das placas ateroscleróticas

Esse processo contribui diretamente para eventos cardiovasculares graves, como infarto e AVC mesmo em pacientes com colesterol total aparentemente “controlado”.

Efeito pró-trombótico: o perigo oculto

Outro ponto importante: a Lp(a) interfere no sistema de fibrinólise.

Ela se liga à fibrina e compete com o plasminogênio, impedindo a formação de plasmina: a enzima responsável por dissolver coágulos.

Ou seja, além de formar placas, ela dificulta sua estabilização e remoção, favorecendo a formação de trombos e aumentando o risco de isquemia em órgãos vitais.

Quando a Lp(a) se torna um problema?

Segundo diretrizes atuais:

  • < 30 mg/dL (75 nmol/L): considerado normal
  • 30–50 mg/dL (75–125 nmol/L): risco intermediário
  • > 50 mg/dL (125 nmol/L): risco cardiovascular elevado

Pacientes com histórico familiar de doença cardiovascular precoce, hipercolesterolemia familiar ou eventos recorrentes devem ter a Lp(a) avaliada.

Mesmo com LDL dentro da meta.

E o papel do nutricionista?

O nutricionista funcional pode ter um papel ativo na estratificação de risco e no cuidado preventivo.

Como?

  • Incluindo a Lp(a) na solicitação ou checagem de exames laboratoriais
  • Identificando pacientes com histórico familiar de DCV precoce
  • Apoiando a conduta com estratégias anti-inflamatórias e protetoras endoteliais
  • Trabalhando a saúde metabólica além do colesterol total

A Lp(a) não responde bem a mudanças de estilo de vida ou alimentação, mas isso não diminui o valor da conduta nutricional, que pode ser essencial no manejo global do risco.

Enquanto terapias específicas ainda estão em estudo, conhecer e monitorar a Lp(a) é um passo clínico valioso.

Você já inclui Lp(a) na sua prática?