
O intestino não influencia apenas a digestão ele também conversa diretamente com o sistema endócrino reprodutivo. Estudos recentes mostram que o microbioma intestinal pode regular o eixo hipotálamo-hipófise-gonadal (HPG), responsável pelo equilíbrio hormonal e pela função reprodutiva.
Neste artigo Iremos explorar:
ToggleO que é o eixo HPG?
O eixo hipotálamo-hipófise-gonadal é a principal via de comunicação entre o cérebro e as gônadas (ovários e testículos). Ele coordena a produção dos hormônios FSH (hormônio folículo-estimulante), LH (hormônio luteinizante), estrógenos e testosterona, todos essenciais para fertilidade, libido e saúde metabólica.
Mas o que antes era visto apenas como um circuito cerebral-endócrino, agora se reconhece também como influenciado pelo intestino.
O estudo que revelou a conexão
Pesquisadores investigaram o impacto do microbioma sobre o eixo HPG em um experimento com camundongos livres de germes.
O estudo fez transplantes de microbiota fecal (TMF) de três grupos de doadores:
1️-Controles com glândulas sexuais intactas;
2️- Gonadectomizados (sem gônadas);
3️- Gonadectomizados com suplementação de hormônios sexuais.
Os resultados foram surpreendentes: os camundongos receptores apresentaram alterações nos níveis de FSH e LH, dependendo da microbiota que receberam.
O que isso significa
A microbiota intestinal não é apenas um reflexo dos hormônios sexuais, ela responde a eles e os regula.
Quando há baixos níveis de estrógenos ou testosterona, o microbioma pode se adaptar e enviar sinais que influenciam a produção hormonal.
Esse diálogo acontece por meio de metabólitos como:
- Ácidos graxos de cadeia curta (AGCC);
- Compostos contendo indol (derivados do triptofano);
- Esfingolipídios, que atuam na sinalização celular e na resposta inflamatória.
Microbioma, hormônios e saúde
A pesquisa mostra que o intestino pode modular o metabolismo de hormônios sexuais, afetando condições como:
- Infertilidade;
- Endometriose;
- Síndrome dos ovários policísticos (SOP);
- Cânceres sensíveis a hormônios (mama, próstata);
- Doenças cardiometabólicas ligadas à disfunção hormonal.
Em resumo, o equilíbrio hormonal pode depender, em parte, de um microbioma intestinal saudável e diverso.
Implicações clínicas
Essas descobertas abrem portas para novas abordagens terapêuticas, como:
- Modulação da microbiota via dieta e probióticos;
- Transplante de microbiota fecal (TMF) em disfunções hormonais;
- Nutrição personalizada para suporte ao eixo HPG;
- Uso de compostos bioativos que favoreçam a produção de AGCC e indóis.
O futuro das terapias hormonais pode passar, literalmente pelo intestino.
O papel do nutricionista
O nutricionista é peça-chave nesse processo, pois atua modulando o microbioma e o metabolismo hormonal de forma integrada.
Suas principais estratégias incluem:
-Planejar dietas ricas em fibras e prebióticos;
-Indicar o uso seguro de probióticos e simbióticos;
-Monitorar micronutrientes relacionados à função gonadal (zinco, magnésio, B6, ômega-3);
-Integrar nutrição, microbiota e equilíbrio hormonal no cuidado funcional.
Uma nutrição bem orientada pode restaurar o eixo HPG e melhorar a saúde reprodutiva de forma natural e duradoura.
Referência:
Li, Y., Zhao, X., Zhang, J., & Sun, H. (2024). Gut microbiome-driven regulation of sex hormone homeostasis and the hypothalamic–pituitary–gonadal axis. Cell Reports, 43(5), 113849.
https://doi.org/10.1016/j.celrep.2024.113849