
A discussão sobre “microbioma feminino” costuma ficar restrita ao intestino, mas a prática clínica mostra que oscilações hormonais, sintomas geniturinários e desfechos reprodutivos frequentemente caminham juntos. Um estudo recente avaliou, de forma longitudinal, como a fase do ciclo menstrual e diferentes regimes contraceptivos se relacionam com o microbioma em múltiplos sítios corporais e traz implicações importantes para interpretação de exames e tomada de decisão clínica.
Neste artigo Iremos explorar:
ToggleO que é considerado um “microbioma vaginal saudável” e por que isso importa?
Em mulheres em idade reprodutiva, é comum observar dominância de Lactobacillus no trato vaginal. Quando essa dominância é baixa (especialmente Lactobacillus crispatus), estudos associam maior risco de parto prematuro, falhas em tratamentos de fertilidade, ISTs e cânceres ginecológicos.
Isso acontece porque comunidades com menos Lactobacillus tendem a ser mais diversas e, em alguns casos, se aproximam do padrão descrito na vaginose bacteriana (mesmo sem sintomas), com maior presença de anaeróbios.
Como o estudo foi feito (e por que ele é relevante)
O trabalho analisou 160 mulheres jovens saudáveis (população dinamarquesa), acompanhadas por 3 momentos do ciclo: menstruação, fase folicular e fase lútea. Foram coletadas amostras de 4 sítios corporais: vaginal, oral (saliva), retal e fezes, e os microbiomas foram caracterizados por shotgun metagenomics.
As participantes foram distribuídas em 3 grupos:
- Sem contraceptivo hormonal (NHC)
- Pílula combinada oral (COC)
- DIU hormonal com levonorgestrel (LNG-IUS)
Principais achados clínicos
1) O ciclo menstrual (e não o contraceptivo) foi o principal “motor” de mudança no microbioma vaginal
A conclusão central foi direta: a fase do ciclo menstrual se associou à composição do microbioma vaginal e oral, mas não ao microbioma intestinal; e o uso de contraceptivo hormonal não mostrou associação significativa com a composição/diversidade nesses sítios em mulheres saudáveis.
2) Durante a menstruação, disbiose vaginal foi muito frequente e depois regrediu
Na menstruação, 58% das mulheres apresentaram microbioma vaginal considerado disbiótico (<60% de Lactobacillus spp.). Essa proporção caiu para 32% na fase folicular e 29% na fase lútea.
3) Lactobacillus (incluindo L. crispatus) aumentou após a menstruação e se correlacionou com estradiol
Após a menstruação, houve expansão de Lactobacillus nas fases folicular e lútea, com correlação com níveis séricos de estradiol (correlação pequena, mas estatisticamente significativa).
4) Intestino: estabilidade ao longo do ciclo e sem sinal relevante de influência do contraceptivo
O estudo observou ausência de diferenças no microbioma fecal ao longo do ciclo, reforçando que as grandes oscilações acontecem principalmente no nicho vaginal (e, em menor grau, no oral).
Implicações práticas para a clínica
1) Atenção ao timing da coleta.
Se você avalia microbioma vaginal (ou interpreta sintomas), a menstruação é um grande fator de confusão: classificar “disbiose” nesse período pode superestimar risco e levar a condutas desnecessárias.
2) Contraceptivo hormonal não é, por si só, “vilão do microbioma” em mulheres saudáveis.
Pelo menos neste desenho (população saudável), COC e LNG-IUS não se associaram a mudanças relevantes no microbioma em vagina/intestino/saliva.
3) Menstruação pode ser um “ponto de virada” para algumas pacientes.
O achado de disbiose transitória na menstruação ajuda a explicar por que algumas mulheres pioram sintomas nesse período e melhoram depois e por que uma única foto do microbioma pode ser enganosa
Papel do nutricionista
O nutricionista é peça-chave quando o objetivo é reduzir recorrência de disbiose, melhorar sintomas cíclicos e apoiar saúde reprodutiva, porque consegue atuar nos determinantes modificáveis do ecossistema (inflamação, integridade de mucosa, trânsito intestinal, padrão alimentar, sono, estresse, álcool, ultraprocessados). Na prática clínica, cabe ao profissional:
- Analisar sintomas por fase do ciclo (não só “se tem ou não disbiose”), ajudando a organizar um raciocínio temporal e evitar interpretações equivocadas em períodos de maior instabilidade (como a menstruação).
- Orientar estratégia alimentar e de estilo de vida com foco em suporte de mucosas e microbiota (fibras/prebióticos, diversidade vegetal, redução de ultraprocessados, adequação proteica e de micronutrientes).
- Individualizar o uso de probióticos e intervenções (quando indicadas), considerando sintomatologia, histórico de recorrência, exames e janela do ciclo.
- Trabalhar em conjunto com ginecologia em casos de infertilidade, recorrência de vaginose/candidíase, ISTs e preparo pré-concepcional, já que o perfil vaginal tem relevância para desfechos reprodutivos.
Referência do artigo
Krog MC, Hugerth LW, Fransson E, et al. The healthy female microbiome across body sites: effect of hormonal contraceptives and the menstrual cycle. Human Reproduction. 2022;37(7):1525–1543. https://doi.org/10.1093/humrep/deac094