Resistência à insulina: o “ponto de convergência” das doenças metabólicas 

A resistência à insulina (RI) deixou de ser vista apenas como um “pré-diabetes” e passou a ser compreendida como um mecanismo central na gênese e progressão de múltiplas doenças metabólicas. Na RI, há redução da responsividade dos tecidos-alvo à ação da insulina, com prejuízo na inibição da produção hepática de glicose e na captação periférica, frequentemente acompanhada de hiperinsulinemia compensatória para manter a homeostase glicêmica.

O que leva à RI? Uma visão mecanística

Do ponto de vista fisiopatológico, qualquer fator que altere a via de sinalização da insulina pode desencadear RI: anormalidades do receptor de insulina, alterações do “ambiente interno” (inflamação, hipóxia, lipotoxicidade e imunidade), além de disfunções na função metabólica hepática e de organelas.


Na prática clínica, isso reforça que RI não é um evento isolado, mas o resultado de um conjunto de pressões metabólicas e inflamatórias que se acumulam ao longo do tempo.

RI e diabetes: relação íntima em todo o continuum metabólico

Como a insulina é um hormônio-chave para o controle glicêmico, a RI está intimamente conectada aos estágios do diabetes, desde alterações precoces até complicações. Para diagnóstico, o clamp hiperinsulinêmico-euglicêmico é padrão-ouro, mas pouco aplicável; por isso, índices como HOMA, insulina de jejum e OGTT são mais utilizados na rotina.

RI e câncer: uma conexão que precisa entrar na anamnese

Evidências experimentais e epidemiológicas indicam que RI e hiperinsulinemia compensatória têm relação sinérgica com o desenvolvimento/progressão de alguns cânceres, incluindo mama, colorretal, próstata, pâncreas, adrenocortical e endométrio.


Isso amplia o raciocínio clínico: em pacientes com histórico familiar de neoplasias e perfil de hiperinsulinemia, a estratégia de redução de RI pode ser também uma camada de prevenção.

RI e doença cardiovascular: o coração como órgão-alvo metabólico

A RI é apontada como fator de risco relevante para doença cardiovascular, com impacto sobre sinalização de insulina, função mitocondrial cardíaca e estresse celular, contribuindo para piora do desempenho miocárdico e risco cardiometabólico.


Em termos práticos, “normalizar glicemia” sem abordar RI e hiperinsulinemia pode ser insuficiente quando o objetivo é reduzir risco cardiovascular.

RI e fígado: o eixo com DHGNA/NAFLD

A literatura revisada reforça a conexão entre RI e doenças hepáticas metabólicas (como NAFLD), destacando a interdependência entre disfunção metabólica hepática e resistência periférica.


Na clínica, isso sustenta a necessidade de olhar para RI em pacientes com enzimas hepáticas alteradas, esteatose em imagem e sinais de síndrome metabólica.

Terapêutica: estilo de vida primeiro, com recursos farmacológicos quando necessário

As estratégias disponíveis para RI se baseiam principalmente em exercício e melhoria dos hábitos alimentares, com possibilidade de suporte farmacológico (ex.: biguanidas/metformina e terapias relacionadas a GLP-1), além de abordagens da medicina tradicional chinesa (ervas e acupuntura) em alguns contextos.


Ou seja: a base continua sendo comportamento e alimentação e a farmacoterapia entra como ferramenta complementar, conforme risco, adesão e comorbidades.


Papel do nutricionista (na prevenção e no manejo da RI)

Na prática clínica, o nutricionista é peça central para interromper a progressão da RI e reduzir desfechos cardiometabólicos. Cabe ao profissional:

  • Rastrear risco metabólico precocemente (história familiar, adiposidade central, padrão alimentar, sedentarismo) e sugerir monitorização laboratorial alinhada ao caso (ex.: glicemia, insulina, HOMA-IR, TG/HDL, OGTT quando indicado).
  • Estruturar plano alimentar terapêutico com foco em qualidade alimentar, controle de picos glicêmicos e melhora de sensibilidade à insulina (individualizando por rotina, preferências, composição corporal e comorbidades).
  • Atuar na redução de hiperinsulinemia por meio de estratégias de composição de refeições, periodização de carboidratos quando apropriado e suporte à adesão.
  • Integrar dieta + exercício (em conjunto com equipe multiprofissional), já que o estilo de vida é o eixo principal de tratamento.
  • Educar o paciente para compreender RI como mecanismo sistêmico ligado a DM, risco cardiovascular e outras condições metabólicas aumentando engajamento e prevenção de longo prazo.

Referência do artigo

Zhao X, An X, Yang C, Sun W, Ji H, Lian F. The crucial role and mechanism of insulin resistance in metabolic disease. Frontiers in Endocrinology. 2023;14:1149239. doi:10.3389/fendo.2023.1149239.

Políticas de Privacidade

Este site usa cookies para que possamos oferecer a melhor experiência de usuário possível. As informações de cookies são armazenadas em seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.