Enzimas Hepáticas como Preditoras de Resistência à Insulina (RI)

A resistência à insulina (RI) é um dos principais fatores ligados à síndrome metabólica, diabetes tipo 2 e doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA). A busca por marcadores acessíveis e de baixo custo para sua detecção precoce é cada vez mais relevante.

Entre esses marcadores, as enzimas hepáticas, especialmente ALT (alanina aminotransferase, também chamada TGP) e AST (aspartato aminotransferase, ou TGO), vêm se destacando como ferramentas úteis.


Aminotransferases e metabolismo da glicose

As aminotransferases participam ativamente do metabolismo de aminoácidos e da gliconeogênese:

  • A ALT permite a transferência do grupo amino do glutamato para o piruvato → formando alanina e α-cetoglutarato.
  • Esse processo pode estimular a liberação de glucagon no pâncreas e aumentar a produção de glicose (gliconeogênese), especialmente em indivíduos obesos.

Assim, níveis elevados dessas enzimas podem sinalizar alterações metabólicas associadas à RI.


Dano hepático e resistência à insulina

A própria resistência à insulina causa impacto no fígado, gerando:

  • Esteato-hepatite (inflamação associada ao acúmulo de gordura no fígado).
  • Elevação de enzimas hepáticas (ALT e AST) no sangue.

Esse perfil bioquímico pode, portanto, servir como fator de triagem para RI, SM e DHGNA.


Evidências em larga escala

Um estudo com mais de 10.000 homens e mulheres coreanos avaliou a relação entre níveis de ALT e a razão ALT/AST com diferentes índices de resistência à insulina:

  • Glicemia de jejum
  • Insulina
  • HOMA-IR
  • Função das células β

Resultados:

  • ALT isoladamente já apresentou correlação positiva e consistente com os quatro índices de RI, em ambos os sexos.
  • Mas a razão ALT/AST teve maior poder preditivo, especialmente:
    • Para glicemia de jejum e HOMA-β em homens.
    • Para todos os índices de RI em mulheres.

Isso sugere que ALT/AST é mais robusto do que ALT isoladamente como marcador preditivo de resistência à insulina.


Conclusão científica

A razão ALT/AST surge como uma ferramenta simples, prática e acessível para rastrear resistência à insulina em grandes populações, independentemente de sexo, presença de diabetes, dislipidemia, obesidade ou consumo de álcool.


O Papel do Nutricionista

O nutricionista pode usar esse conhecimento na prática clínica para:

  • Interpretar exames laboratoriais de forma integrada, reconhecendo a relação entre enzimas hepáticas e risco metabólico.
  • Identificar precocemente resistência à insulina, permitindo intervenções nutricionais antes da progressão para DM2 ou DHGNA.
  • Prescrever planos alimentares personalizados que reduzam inflamação hepática, resistência insulínica e sobrecarga metabólica.
  • Apoiar a saúde intestinal e hepática, utilizando estratégias anti-inflamatórias, probióticos, prebióticos e ajuste da qualidade das gorduras.
  • Colaborar com equipe multiprofissional para prevenir complicações metabólicas e hepáticas a longo prazo.

Mensagem final: incluir ALT e, principalmente, a razão ALT/AST como marcador bioquímico pode ser uma estratégia poderosa de rastreio em saúde metabólica, ampliando a precisão do olhar nutricional na prática clínica.