Microbiota intestinal e hormônios sexuais: implicações no dimorfismo sexual das doenças metabólicas

As doenças metabólicas, como obesidade, síndrome metabólica e diabetes mellitus tipo 2 (DM2), representam um dos maiores desafios de saúde pública global. Evidências crescentes demonstram que essas condições apresentam um marcado dimorfismo sexual em sua prevalência, progressão e manifestações clínicas. Nesse contexto, a interação entre hormônios sexuais e microbiota intestinal emerge como um eixo fisiopatológico central para a compreensão dessas diferenças.

Dimorfismo sexual e doenças metabólicas

Homens e mulheres apresentam padrões distintos de distribuição de gordura corporal, resposta inflamatória, sensibilidade à insulina e risco cardiometabólico. Esses contrastes são fortemente influenciados pelos hormônios sexuais, especialmente estrogênios e testosterona, cujos efeitos se estendem desde a regulação da composição corporal até a modulação da homeostase glicêmica e lipídica.

Além das diferenças entre os sexos, observa-se também uma heterogeneidade importante entre mulheres, particularmente relacionada às transições hormonais ao longo da vida, como puberdade, gestação, síndrome dos ovários policísticos (SOP) e menopausa. Essas variações hormonais impactam diretamente o metabolismo e contribuem para alterações no risco de obesidade, síndrome metabólica e DM2.

Microbiota intestinal como mediadora do dimorfismo sexual

Estudos recentes indicam que parte do dimorfismo sexual observado nas doenças metabólicas pode ser explicado por diferenças na composição e diversidade da microbiota intestinal entre homens e mulheres, bem como entre mulheres com diferentes perfis hormonais. Evidências em humanos demonstram que níveis mais elevados de testosterona nos homens e de estradiol nas mulheres estão associados a maior diversidade microbiana, considerada um marcador de saúde metabólica.

Além disso, mulheres na pós-menopausa apresentam uma microbiota mais semelhante à dos homens, refletindo a queda estrogênica e a redistribuição de gordura corporal para um padrão mais visceral, associado a maior risco cardiometabólico.

Mecanismos de interação entre microbiota e hormônios sexuais

A microbiota intestinal influencia e é influenciada pelos hormônios sexuais por meio de múltiplos mecanismos:

  • Inflamação mediada por lipopolissacarídeos (LPS): o aumento da permeabilidade intestinal permite a translocação de LPS para a circulação, promovendo inflamação crônica de baixo grau, resistência à insulina e disfunção metabólica.
  • Integridade da barreira intestinal: bactérias benéficas, como Akkermansia muciniphila, Bifidobacterium e Lactobacillus, fortalecem a barreira intestinal, reduzem a inflamação e melhoram a sensibilidade à insulina.
  • Metabólitos derivados da microbiota: os ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), especialmente o butirato, exercem efeitos anti-inflamatórios, modulam a função imunológica, melhoram a homeostase glicêmica e influenciam a expressão gênica por mecanismos epigenéticos.
  • Eixo intestino–cérebro: a microbiota regula hormônios envolvidos no controle do apetite e do metabolismo energético, como GLP-1, leptina e grelina, impactando de forma distinta homens e mulheres.

Adicionalmente, a microbiota participa do metabolismo dos próprios hormônios sexuais por meio do chamado estroboloma, conjunto de genes bacterianos capazes de reativar estrogênios no intestino, influenciando seus níveis sistêmicos e seus efeitos metabólicos.

Alimentação, microbiota e terapias emergentes

A composição da microbiota intestinal é altamente dependente dos hábitos alimentares, o que reforça o papel da nutrição como ferramenta terapêutica central. Dietas ricas em fibras, compostos bioativos e alimentos de origem vegetal favorecem maior diversidade microbiana e produção de AGCC, com efeitos metabólicos positivos que podem variar conforme o sexo e o perfil hormonal.

Estratégias como dietas específicas, prebióticos, probióticos, simbióticos e transplante de microbiota fecal vêm sendo investigadas como abordagens promissoras para o tratamento das doenças metabólicas, com potencial de efeitos sexo-específicos, dada a interação entre microbiota e hormônios sexuais.


Papel do nutricionista

O nutricionista desempenha papel fundamental na modulação do eixo microbiota–hormônios–metabolismo, sendo responsável por:

  • Avaliar o perfil metabólico, inflamatório e hormonal do paciente;
  • Reconhecer diferenças fisiológicas entre homens e mulheres e entre fases da vida feminina;
  • Prescrever estratégias alimentares individualizadas que favoreçam a diversidade da microbiota intestinal;
  • Utilizar fibras, prebióticos, probióticos e alimentos funcionais de forma personalizada;
  • Integrar alimentação, estilo de vida, manejo do estresse e sono na abordagem terapêutica;
  • Contribuir para intervenções nutricionais com potencial de reduzir o risco e a progressão das doenças metabólicas de forma mais precisa e eficaz.

Essa atuação personalizada é essencial para otimizar os desfechos clínicos e respeitar o dimorfismo biológico presente nas doenças metabólicas.


Referência 

SANTOS-MARCOS, Jose Antonio et al. Interaction between gut microbiota and sex hormones and their relation to sexual dimorphism in metabolic diseases. Biology of Sex Differences, London, v. 14, n. 4, p. 1-24, 2023. DOI: 10.1186/s13293-023-00490-2.